Rita Benamor (Osteopata, TSC e de MV)


A Manipulação Visceral é uma terapia manual que foi desenvolvida pelo osteopata francês Jean Pierre Barral. Chamou-lhe “osteopatia líquida” por actuar nos órgãos viscerais e nos fluidos que os envolvem e preenchem. A partir das suas pesquisas e prática clínica num universo de dezenas de milhar de pacientes, Jean Pierre Barral concluiu que 60% das disfunções do aparelho músculo-esquelético têm origem visceral, e que só depois do órgão ter sido manipulado e a sua função restabelecida, a situação se pode alterar a longo prazo. Esta relação entre as vísceras e a nossa parte motora já tinha sido constatada pelo pai da Osteopatia, Andrew Still, que observou num paciente a ligação entre queixas a nível da lombar e diarreias e outros distúrbios intestinais frequentes. Mas foi Jean Pierre Barral quem desenvolveu a Manipulação Visceral e tem vindo a formar terapeutas para trabalharem com os órgãos viscerais de forma específica, beneficiando assim o corpo no seu todo.
O conceito de que o corpo se divide em onze sistemas é útil enquanto forma de estudar e apreender a anatomia e fisiologia humanas, mas na realidade esses sistemas do corpo não existem. É impossível definir e estabelecer a fronteira onde um sistema começa e o outro acaba, pois o corpo funciona como um todo, e é nessa visão holística que o podemos abordar para o compreender.
“Um órgão ou víscera em boa saúde tem movimento fisiológico. Este movimento é interdependente devido às membranas serosas que envolvem o órgão, às fascias, aos ligamentos e outros tecidos vivos que o ligam ao resto do organismo.” J.P.Barral.
O movimento fisiológico tem duas componentes. Uma é a mobilidade visceral, que está relacionada com o efeito dos movimentos voluntários do aparelho locomotor sobre as vísceras, tais como andar, sentar-se, dobrar o tronco para a frente, etc. A outra a motilidade visceral, que corresponde ao movimento inerente ao próprio órgão e que perpetua o padrão de mobilidade presente durante a migração embriológica. Qualquer restrição ou aderência a outra estrutura, por mais ínfima que seja, implica um desequilíbrio funcional do órgão e alteração no seu movimento e subsequentemente na sua função. Se considerarmos os milhares de vezes por dia em que esse movimento é repetido, é fácil imaginar como isso poderá trazer alterações significativas tanto ao órgão como às estruturas com ele relacionadas, como a partes do aparelho músculo-esquelético através das ligações de cada órgão ao Sistema Nervoso Central e Periférico.
O terapeuta visceral utiliza várias técnicas de diagnóstico e de escuta para poder direccionar o seu trabalho para a área que o corpo lhe indicar, o ponto onde ele está a travar a maior batalha nesse momento, onde as tensões estão acumuladas e há disfunção.
Através do contacto manual em pontos específicos, as fibras proprioceptivas desse órgão vão estabelecer uma comunicação ao cérebro, permitindo um novo “encontro” entre parceiros que tinham deixado parcialmente de “trabalhar em equipa”, promovendo uma tomada de consciência e reactivando os mecanismos de auto-regulação, um dos princípios de Still e da Osteopatia, que a sabedoria do corpo contém. É através desse processo, despoletado pela manipulação visceral, que as mudanças ocorrem no paciente e o terapeuta pode constatar os resultados do seu trabalho.
A influência positiva que Manipulação Visceral Pediátrica pode ter em bebés e crianças, cujos órgãos e corpos ainda estão em desenvolvimento (os sistemas digestivo e nervoso ainda estão imaturos nos primeiros meses), pode ser enorme. Desta forma ela é usada na prevenção de problemas futuros e para tratar disfunções precoces. Viola Frymann afirmava que o reconhecimento e tratamento das disfunções e tensões músculo-esqueléticas a que os recém-nascidos são submetidos no parto e durante o crescimento, é uma das fases mais importantes da medicina preventiva. O estudo da Embriologia demonstra como as várias etapas de evolução do embrião nos ajudam a compreender a relação existente entre vários órgãos que foram formados simultaneamente, e a ligação entre estruturas que derivam da mesma camada original de tecido embriológico; a ectoderme, a mesoderme e a endoderme.
Sendo cada indivíduo composto por corpo, mente e espírito, o maestro que é o nosso cérebro não se limita apenas a receber, processar e enviar informação de e para os nossos sistemas biológicos, ele também processa tudo o que nos rodeia e acontece, absorve o que sentimos, modula a nossa personalidade, desenha as nossas resistências e constrói as nossas defesas e comportamentos. Como diz Jean Pierre Barral, “ a vida nem sempre é um longo rio tranquilo (...) e o ser humano passa por transformações físicas constantes, a mente e o espírito evoluem, as nossas personalidades mudam e os nossos órgãos mais sensíveis, o nosso elo mais fraco, também se podem alterar ao longo da vida.” Por esse motivo desenvolveu técnicas víscero-emocionais que permitem trabalhar a ligação entre o órgão, a emoção e o cérebro, de forma a libertar tensões e conflitos e restabelecer o equilíbrio, o que se pode vir a reflectir não só fisicamente, mas também numa mudança da atitude e forma de estar por parte do paciente.
“Não devemos negligenciar nada do que o nosso corpo nos diz!” é um princípio que Jean Pierre Barral defende que deveria fazer parte da educação desde tenra idade. O corpo é o fiel tradutor de tudo o que se passa dentro e fora de nós; das nossas emoções, da nossa mente, corpo e alma.