A caixa craniana é uma cavidade visceral posterior que aloja grande parte das estruturas nobres do ser humano, como sejam o encéfalo, o cerebelo, as glândulas endócrinas (a hipófise e a pineal), mas também parte do tronco cerebral de onde emergem os pares cranianos responsáveis por funções tão importantes como o controlo autónomo da respiração e do batimento cardíaco.





O crânio tem a particularidade de, apesar de apresentar uma rigidez substancial para proteger todas as estruturas acima citadas, ter igualmente de aliar uma flexibilidade que permita adaptar-se ao crescimento e desenvolvimento do próprio encéfalo, bem como a possíveis traumatismos que nele possam ocorrer. O próprio parto é o primeiro momento onde esta dualidade rigidez/flexibilidade do crânio vai ser posta à prova. Como é sabido, o crânio de um bebé é essencialmente membranoso, uma vez que os ossos cranianos ainda não estão totalmente desenvolvidos. Essas áreas cartilaginosas denominam-se de fontanelas e são particularmente importantes nos primeiros anos de vida de um humano, uma vez que o crânio tem de ter uma capacidade de flexibilidade muito grande para que como ser vivo superior que somos, possa ocorrer um grande desenvolvimento do córtex cerebral ou neocórtex, com aumento considerável do seu volume. Contudo, após o fecho das fontanelas que normalmente terminam por volta do sétimo ano de vida e o consequente aparecimento das suturas, a classe médica e anatomista considera o crânio como uma estrutura rígida e sem mobilidade. Ao longo dos anos osteopatas, quiropratas, fisioterapeutas, ortodontistas e dentistas, conseguiram determinar que o crânio consegue manter alguma mobilidade, caracterizada por pequenos micro movimentos ao nível das suturas. Assim, estas não ossificam e permitem adaptações morfológicas entre os ossos do crânio e a massa encefálica ao longo de toda a vida. O crânio de qualquer indivíduo está constantemente sujeito a variações de pressão derivada dos ciclos sistólicos e diastólicos sanguíneos, bem como das variações de pressão decorrentes da produção e circulação do líquido céfalo-raquidiano. As suturas são sistemas articulares muito especiais e diferenciados que estabelecem uma continuidade hidráulica, através de numerosas conexões vasculares, com o osso esponjoso dos ossos do crânio que se denomina de diploé. Desta forma, existem pequenas variações de pressão das suturas para os ossos cranianos e vice-versa, que promovem micro movimentos de ajuste suturais e cranianos. A dura-máter, como sendo a meninge mais externa, composta por tecido conjuntivo denso que envolve todo o sistema nervoso central e que adere à base do crânio e à abobada craniana, emite expansões denominadas de foices e tendas que têm um papel importante no posicionamento a acção das suturas. Podemos definir uma sutura como a conexão de dois bordos ou margens ósseas, conectadas por finas camadas de tecido conjuntivo. Contudo, existem diversos tipos de suturas consoante a forma e orientação desses mesmo bordos ósseos. No entanto, algumas características são comuns a todas elas. Em primeiro lugar cada sutura consiste em várias camadas. As duas mais externas são as de ligação. Como se tratasse da continuação do periósteo dos dois ossos. Por sua vez as camadas mais profundas contornam cada um dos ossos, de modo a criarem uma cápsula fibrosa. Entre estas cápsulas surge uma zona denominada de central, que é ricamente vascularizada e inervada. Este aporte vascular e nervoso do tecido conjuntivo existente nas suturas conjuntamente com a capacidade de dinâmica de fluidos e de micro movimentos são os elementos de diferenciação e que determinam que o tecido vivo existente numa sutura consiga expressar o ritmo respiratório primário, ou seja, uma força vital  interna existente.


A mobilidade tecidular e dos fluidos orgânicos é, assim, no ser humano, a principal expressão daquilo a que chamamos estar de boa saúde. Não se trata apenas de processos biomecânicos, mas sim a expressão da vida no seu expoente máximo pela acção de funções orgânicas que terminam nas nano estruturas que nos compõem e que delas depende aquilo que somos.

Nuno Matos ( Fisioterapeuta, Naturopata, Prof. Anatomia da EAN)