Roberty Schleip, Werner Klinger (Dep. De Fisiologia Aplicada, Univ. de Ulme.)


A Fascia tem a capacidade de se contrair e relaxar de forma pseudo-muscular suave e por isso mesmo influencia o comportamento biomecânico.
A fascia é normalmente tida por ter um comportamento passivo na dinâmica biomecânica, transmitindo tensão gerada por forças que lhe são externas. Contrariando este conceito, Staubesand e Rolf propuseram que a fascia tem a capacidade de se contrair e relaxar activamente e que essas mudanças podem ser perceptíveis pela mão experiente de um terapeuta. (1,2)

O nosso projecto de pesquisa propõe-se examinar a natureza da contractilidade activa fascial. Para esse fim seguimos três métodos principais: revisão literária, exames histológicos e testes de contracção com fascia in vitro.

Encontrámos inúmeras referências literárias sobre a contractilidade activa da fascia. Tal acontece nos processos de cicatrização e nas contracturas fasciais patológicas tais como a "Morbus Dupuytren" ou o ombro congelado (frozen shoulder). Estas contracções devem-se á existência e proliferação de uma classe especial de células de tecido conectivo com suave capacidade contractiva pseudo-muscular, chamadas miofibroblastos. A contractilidade destas células deve-se a (pelo menos) dois factores: a influência dos cytokinos (proteínas reguladoras mediadoras na geração de resposta imunitária) específicos e à estimulação mecânica.

A presença de miofibroblastos (células intercaladas entre os fibroblastos do tecido conectivo, e os músculos não estriados) tem sido documentada em ligamentos do esqueleto, tendões e mais densamente em ligamentos viscerais e diversas cápsulas dos órgãos.


Fibrose da aponevrose palmar na doença de Dupuytren





Na nossa análise histológica examinámos a presença de miofibroblastos na fascia humana normal, tal como a fascia lombar, fascia lata ou a fascia plantar. Basicamente encontrámos quantidades significativas de miofibroblastos em todos os nossos tecidos (n=39). A densidade é maior em jovens pacientes e nas áreas com uma grande formação de ondas nas fibras de colagéneo. (3). Uma maior quantidade também foi encontrada na proximidade dos vasos sanguíneos e logo, provavelmente, junto dos nervos.

A-    Fascia lombar de um idoso (76 anos) com ondas de colagéneo pouco significativas e ausência de células com marcação positiva.

B-    Fascia lombar de jovem (19 anos), evidenciando maior "ondulação" de colagéneo e bastantes células marcadas positivamente pelo marcador de myofibroblastos α - actína de músculo não estriado (cast. escuro na imagem).



Nos nossos testes de contracção in vitro suspendemos tiras de fascia animal fresca ou de fascia humana numa solução orgânica. As tiras de tecido são esticadas isométrica mente e a sua força de resistência medida enquanto procedemos a testes com diversos agentes contrateis potenciais. Nem a adrenalina ou a acetylcolina induziram qualquer alteração de tónus. No entanto, com a mepiramina (o agente contráctil mais comum utilizado na pesquisa dos myofibroblastos) bem como com a hormona oxytoxina, verificámos respostas de contracção significativa da ordem dos 5,0 a 1minuto de duração após administração dos mesmos. As forças de contracção medidas foram suficientemente fortes para provocarem influências significativas na dinâmica músculo esquelética assumindo uma contracção semelhante em folhas fasciais de maiores dimensões in vivo. (e.g. 38 N para a fascia lombar)



Uma descoberta bastante interessante foi a constatação de que os perimisio (camada fascial que envolve grupos de fibras musculares) contem uma densidade particularmente elevada de células contrácteis (mais claras na imagem imunofluorescente no topo da coluna seguinte). Esta constatação traz implicações muito interessantes na compreensão da tendência para a rigidez passiva dos músculos tónicos, sabendo-se que estes contem maiores quantidades de perimisio do que os músculos fásicos (5).



Conclusão
A fascia tem capacidade activa de contracção e relaxamento capaz de influenciar o comportamento biomecânico.
Esta mediação opera-se pela presença de células conectivas contrácteis (miofibroblastos) responsáveis pela estimulação mecânica.
Estas constatações sugerem uma nova compreensão de patologias relacionadas com o aumento ou diminuição do tónus miofascial.
Acarretam implicações nos tratamentos dirigidos à fascia tais como a osteopatia, Rolfing ou libertação miofascial.

Referencias



Agradecimentos: Este estudo foi possível graças ao suporte da "Internacional Society of Biomechanics", "European Rolfing Association e do "Rolf Institute of Structural Integration. www.fasciaresearch.com

Tradução do Inglês: Henrique Tabot